Autocuidado,  Estilo de Vida

Autocuidado como luta política

Falar de autocuidado já se tornou uma espécie de lugar de comum, e algumas vezes me parece que o termo tem sido usado de maneira um tanto vazia de sentido. É maravilhoso que esse assunto esteja ganhando a repercussão que merece, ainda mais numa sociedade como a nossa, organizada a partir da ideia de culpa cristã. Porém sinto que, como grande parte das discussões nessa fase do capitalismo financeiro e neoliberal, tudo acaba no indivíduo. Não haveria possibilidade de compartilhamento da experiência do cuidado.

E é exatamente isso que me aflige. Durante muito tempo não dei a devida atenção ao meu autocuidado por achar que essas coisas não combinariam com espaços de luta política e de construção de outros mundos. Não levava minha saúde mental e meu bem estar a sério pois isso de alguma maneira anularia a seriedade das coisas que eu fazia. Foi somente depois de começar um processo de autoconhecimento profundo, que me dei conta da necessidade de voltar para dentro a fim de estar inteira para mim mesma e para o mundo. Aprendi que cuidar de si mesma não é egoísmo, que dizer não e impor limites também são uma forma – muito importante – de autocuidado. Ainda mais para nós, mulheres, que já vivemos centenas de violências no cotidiano.

E assim, o autocuidado se tornou parte importante da jornada por aqui. Óbvio, tenho muitas questões a serem resolvidas, mas esse tema sempre está no meu horizonte. Minha preocupação atual está no fato de muitas abordagens tomarem o autocuidado como algo em si mesmo. Eu me cuido e está tudo beleza. Quando na verdade o autocuidado, do meu ponto de vista, deveria ser algo importante pra caramba, mas que faz parte de uma tentativa de mudar o mundo. Não é apenas sobre fazer skincare, tomar banho de ervas, meditar, estar em contato com a natureza. É também sobre cuidar da natureza (que somos todos nós) e construir coletivamente o cuidado com tudo que nos cerca. Cuidar de maneira holística. A alegria e a esperança devem ser compartilhadas. Isso é transformador. É necessário que a gente tente ficar bem e se conseguimos, devemos espalhar a festa, a arte e a beleza como métodos de guerrilha neste mundo tão cinza.

A intenção não é, de maneira alguma, colocar mais uma culpa sobre nossas costas. Apenas propor essa reflexão que tenho feito nos últimos tempos. Estamos passando por um período muito difícil, a pandemia não dá sinais de recuo e o desgoverno só atrapalha em meio a maior crise sanitária dos últimos 100 anos. Há muito o que fazer por nós mesmas e os pequenos momentos de prazer e relaxamento são fundamentais. Continuemos cuidando de nós mesmas, mas sem esquecer que estamos todos conectados. Se não, vira um salve-se quem puder. E isso, nós já sabemos que não traz bons resultados.

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