Estilo de Vida

Olhar para morte, encantar a vida

Eu já acompanhava, de longe, o trabalho da Ana Claudia Quintana Arantes e tinha muita curiosidade de saber mais sobre a sua caminhada com os cuidados paliativos e a abordagem que ela propõe sobre a morte.

A pandemia e todo o contexto que estamos passando tem me feito pensar bastante sobre a finitude e impermanência de todas as coisas, inclusive da vida. Então, finalmente, fui ler o livro que a Ana (tô me sentindo íntima dessa mulher incrível) lançou em 2018 “A morte é um dia que vale a pena viver”. E gente, que livro maravilhoso! Um dos melhores que já li. Me tocou de uma maneira tão potente!

Ela acompanha pacientes que têm uma doença grave, sem cura e os ajuda nesse tempo de terminalidade. Num primeiro momento pode parecer mórbido, mas é exatamente ao contrário! A missão dela é dar dignidade e qualidade para a vida que as pessoas ainda podem viver. E neste processo, muita coisa vem à tona. A proposta é que a gente viva a vida com a maior clareza possível, honrando esse período que temos aqui para quando a nossa própria morte chegar – e ela vai chegar! estejamos em paz com nossas escolhas e vivências. Isso faz toda a diferença!

A sociedade ocidental trata a mortalidade como um imenso tabu, embora seja a única certeza que temos ao nascer. Um enorme elefante branco que decora todas as salas, do qual desviamos durante toda a vida, mas no qual esbarraremos e aí será somente a gente e nossa consciência: “Se nunca viveram com sentido, dificilmente terão a chance de viver a morte com sentido”

Ana fala sobre o tempo, a família, a importância de boas escolhas e serenidade: “o que separa o nascimento da morte é o tempo. Vida é o que fazemos dentro desse tempo”. Essa frase me pegou de um jeito… Outra ideia que também mexeu por aqui foi a de ausência na própria vida, quando a gente de fato não está presente nas experiências que temos, como mortos-vivos em nossa própria existência. Isso é muito forte. E é real!

O livro é um convite maravilhoso para que a gente possa encantar a vida. Celebrá-la, apesar dos percalços, dar valor ao que realmente nos traz alegria, estar presente em nossas relações, priorizar as nossas escolhas e não as de outras pessoas…

“Quem diz que tem medo da morte deveria ter um medo mais responsável. Quem sabe não poderíamos dizer que deveriam ter respeito pela morte. O medo não salva ninguém da morte, a coragem também não. Mas o respeito pela morte traz equilíbrio e harmonia nas escolhas. Não traz imortalidade física, mas possibilita a experiência consciente de uma vida que vale a pena ser vivida”.

Que a gente celebre as lembranças e a vida das pessoas queridas que se foram e que, conscientes de nossa finitude, possamos aproveitar, responsavelmente, cada pedaço do nosso caminhar.

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